PI PI PI PI DO NADA
O tempo é, com certeza, o maior mistério do nosso mundo. Ao
mesmo tempo em que ele pode passar devagar e arrastado, pode mudar duas vidas
em questão de segundos.
Foram necessários apenas alguns segundos para o carro dar
duas voltas no ar e então tudo se apagar.
Therry
Pi pi pi pi pi pi…
Mas que barulho chato! Ei, tem um cachorro descansado aqui,
pessoal!
Pera aí!
Onde é que eu tô? Cadê o John? Que cheiro é esse???? Ei, tem
alguma coisa estranha! Quem me deixou deitado de barriga pra cima? Pera aí, eu
não sinto meu focinho!!! Socorro, John, eu não sinto meu focinho!! Ah, meu
Deus… esse não é o meu focinho!
— Au au au!
Ah, meu Deus! Eu estou falando a língua dos humanos? Será
que eu virei um humano quando o carro bateu? Preciso sair daqui, mas tem tantos
fios… Espero que o John não fique chateado, mas vou ter que me livrar deles. É
só puxar um pouquinho…
Caramba, por isso os humanos usam tanto as patas: esses
dentes são fracos e essa boca é tão pequena… mas eu consigo! Preciso encontrar
o John, eu estou sentindo o cheiro dele por aqui!
Therry, com muito esforço, conseguiu usar as “patas” para se
livrar da cama de hospital na qual estava há uma semana.
— Mas que coisa estranha… não me sinto confortável com as
quatro patas! Tudo tá doendo, e o cheiro aqui é tão forte! Vou precisar
encontrar o John, e pra isso acho que vou ter que andar apenas com as minhas
patas trasei… ou os meus pés? Ah, meu Deus, cadê o meu RABO?! JHOOON, EU
PRECISO DE AJUDA!
Therry deu o seu melhor para sair do quarto do hospital sem
levantar muitas suspeitas e teve sorte, porque à 00h30 o hospital estava
relativamente vazio. Foi andando de um corredor a outro e, por mais estranho
que parecesse, o corpo humano no qual ele se encontrava ainda era capaz de usar
o faro como apenas um labrador poderia.
Therry andou e andou, até o momento em que sentiu o cheiro
inconfundível do seu melhor amigo, do seu querido John.
Ele se apressou e entrou no quarto o mais rápido que pôde e,
assim que entrou, seu primeiro instinto foi encher John de lambeijos.
— Ei, cara, acorda! — muitas lambidas. — Acorda, cara, você
precisa ver isso!
Mas que estranho… mesmo após as muitas lambidas de Therry,
John permanecia desacordado, dormindo tranquilo, sem sinais de que iria
despertar. Então Therry resolveu se deitar ao lado dele e esperar, pois em
algum momento John iria acordar e resolver toda aquela confusão.
Voom!
— Au, au… opa! Olá? Quem tá aí?
— AAAH! Que susto, senhor! O que o senhor está fazendo aqui?
O senhor não pode ficar aqui, precisa voltar para o seu quarto. Quem deixou o
senhor sair? Ah, meu Deus! Se alguém ver o senhor andando pelo hospital assim,
vão achar que eu não cuido direito do meu plantão. Vamos indo, vamos, já!
E assim a enfermeira acompanhou Therry de volta ao seu
quarto, deixando-o novamente longe de John.
E, mais uma vez, sem muitas explicações, o tempo passou —
dessa vez mais arrastado do que dias atrás, quando dois destinos foram
transformados de forma abrupta.
Quando Therry recebeu alta, percebeu que voltar para casa
era muito mais assustador do que acordar em um corpo humano. Assinar papéis,
vestir roupas que não eram dele e ouvir recomendações médicas sobre coisas que
ele não entendia direito parecia estranho demais para quem, até pouco tempo
atrás, resolvia tudo abanando o rabo. Ainda assim, fez o que sempre soube
fazer: seguiu. Saiu do hospital com passos cuidadosos, o faro atento e o
coração inquieto, sentindo que algo havia mudado para sempre — não apenas no
corpo, mas na forma de estar no mundo.
Ao chegar em casa, Therry percebeu que sua tão amada ração
premium tinha um gosto bem estranho e precisou atacar a geladeira de John. A
sorte é que, como sempre fora Therry e John, John e Therry, ele conhecia muito
bem os hábitos do seu dono e foi assim que sobreviveu durante os dias de espera
para rever seu companheiro amado.
Rangido de porta abrindo.
— AU AU AU AU AU AU AU AU!
A alegria ao ver John passar por aquela porta era tão grande
que, por um momento, Therry se esqueceu de que agora podia falar como humano.
Mas, antes mesmo de se dar conta disso, percebeu que John estava diferente.
John estava sentado em uma cadeira de rodas.
Por instinto, Therry avançou para pular em seu colo, mas
parou no meio do caminho. O corpo respondeu antes do pensamento, e naquele
segundo ele entendeu que algumas coisas precisariam ser reaprendidas. John o
olhou rapidamente e estranhou, mas algo em seu semblante demonstrava que ele
sabia que estavam um de frente ao outro. Therry aproximou-se devagar, como
nunca havia feito antes, encostando a cabeça em suas pernas sem força, sem
peso, apenas presença. O cheiro era o mesmo. O amor também.
— John… sou eu, Therry.
— O quê? Como assim? Therry é meu cachorro, que infelizmente
sofreu um acidente comigo… Como você conseguiu entrar aqui? Eu vou chamar a
polícia!
— NÃO, JOHN! Sou eu! Eu não sei o que houve, mas sou o
Therry. Eu acordei no hospital e tudo estava tão diferente… meu focinho agora é
um nariz, eu não tenho rabo… au!
— Mas como… isso é uma brincadeira?
— John, acredita em mim! Sou eu, Therry. Eu vou te provar.
Eu sei que você sempre acorda de mau humor, que odeia trabalhar e escrever pela
manhã. Sei que você adora comer mamão e divide comigo todo domingo depois de ir
à feira. Sei que essa é a nossa casa e que você briga comigo se eu fizer xixi
fora do tapete…
— Isso não pode ser possível…
— Sei que estávamos juntos indo visitar sua família. Sei que
você assobia quando quer que eu corra atrás de você…
— Therry… como isso é possível? O que houve? Eu estou
sonhando?
— Não, John. Eu estou aqui. E vou estar sempre aqui. Parece
que alguém sabia que você precisaria de mim…
Naquele dia, Therry compreendeu que não havia virado humano
por acaso. Não era para falar, nem para andar em duas pernas, nem para entender
o mundo dos homens. Era para ficar. Para aprender a esperar, a acompanhar, a
ser constância quando tudo ao redor precisava ser ressignificado. Viver a vida
humana honrando o instinto de cão: estar ali, todos os dias, como o melhor
amigo do homem.
Lindo 🥹🥹
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