terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O Melhor Amigo do Homem

 

PI PI PI PI DO NADA

O tempo é, com certeza, o maior mistério do nosso mundo. Ao mesmo tempo em que ele pode passar devagar e arrastado, pode mudar duas vidas em questão de segundos.

Foram necessários apenas alguns segundos para o carro dar duas voltas no ar e então tudo se apagar.

Therry

Pi pi pi pi pi pi…

Mas que barulho chato! Ei, tem um cachorro descansado aqui, pessoal!

Pera aí!

Onde é que eu tô? Cadê o John? Que cheiro é esse???? Ei, tem alguma coisa estranha! Quem me deixou deitado de barriga pra cima? Pera aí, eu não sinto meu focinho!!! Socorro, John, eu não sinto meu focinho!! Ah, meu Deus… esse não é o meu focinho!

— Au au au!

Ah, meu Deus! Eu estou falando a língua dos humanos? Será que eu virei um humano quando o carro bateu? Preciso sair daqui, mas tem tantos fios… Espero que o John não fique chateado, mas vou ter que me livrar deles. É só puxar um pouquinho…

Caramba, por isso os humanos usam tanto as patas: esses dentes são fracos e essa boca é tão pequena… mas eu consigo! Preciso encontrar o John, eu estou sentindo o cheiro dele por aqui!

Therry, com muito esforço, conseguiu usar as “patas” para se livrar da cama de hospital na qual estava há uma semana.

— Mas que coisa estranha… não me sinto confortável com as quatro patas! Tudo tá doendo, e o cheiro aqui é tão forte! Vou precisar encontrar o John, e pra isso acho que vou ter que andar apenas com as minhas patas trasei… ou os meus pés? Ah, meu Deus, cadê o meu RABO?! JHOOON, EU PRECISO DE AJUDA!

Therry deu o seu melhor para sair do quarto do hospital sem levantar muitas suspeitas e teve sorte, porque à 00h30 o hospital estava relativamente vazio. Foi andando de um corredor a outro e, por mais estranho que parecesse, o corpo humano no qual ele se encontrava ainda era capaz de usar o faro como apenas um labrador poderia.

Therry andou e andou, até o momento em que sentiu o cheiro inconfundível do seu melhor amigo, do seu querido John.

Ele se apressou e entrou no quarto o mais rápido que pôde e, assim que entrou, seu primeiro instinto foi encher John de lambeijos.

— Ei, cara, acorda! — muitas lambidas. — Acorda, cara, você precisa ver isso!

Mas que estranho… mesmo após as muitas lambidas de Therry, John permanecia desacordado, dormindo tranquilo, sem sinais de que iria despertar. Então Therry resolveu se deitar ao lado dele e esperar, pois em algum momento John iria acordar e resolver toda aquela confusão.

Voom!

— Au, au… opa! Olá? Quem tá aí?

— AAAH! Que susto, senhor! O que o senhor está fazendo aqui? O senhor não pode ficar aqui, precisa voltar para o seu quarto. Quem deixou o senhor sair? Ah, meu Deus! Se alguém ver o senhor andando pelo hospital assim, vão achar que eu não cuido direito do meu plantão. Vamos indo, vamos, já!

E assim a enfermeira acompanhou Therry de volta ao seu quarto, deixando-o novamente longe de John.

E, mais uma vez, sem muitas explicações, o tempo passou — dessa vez mais arrastado do que dias atrás, quando dois destinos foram transformados de forma abrupta.

Quando Therry recebeu alta, percebeu que voltar para casa era muito mais assustador do que acordar em um corpo humano. Assinar papéis, vestir roupas que não eram dele e ouvir recomendações médicas sobre coisas que ele não entendia direito parecia estranho demais para quem, até pouco tempo atrás, resolvia tudo abanando o rabo. Ainda assim, fez o que sempre soube fazer: seguiu. Saiu do hospital com passos cuidadosos, o faro atento e o coração inquieto, sentindo que algo havia mudado para sempre — não apenas no corpo, mas na forma de estar no mundo.

Ao chegar em casa, Therry percebeu que sua tão amada ração premium tinha um gosto bem estranho e precisou atacar a geladeira de John. A sorte é que, como sempre fora Therry e John, John e Therry, ele conhecia muito bem os hábitos do seu dono e foi assim que sobreviveu durante os dias de espera para rever seu companheiro amado.

Rangido de porta abrindo.

— AU AU AU AU AU AU AU AU!

A alegria ao ver John passar por aquela porta era tão grande que, por um momento, Therry se esqueceu de que agora podia falar como humano. Mas, antes mesmo de se dar conta disso, percebeu que John estava diferente. John estava sentado em uma cadeira de rodas.

Por instinto, Therry avançou para pular em seu colo, mas parou no meio do caminho. O corpo respondeu antes do pensamento, e naquele segundo ele entendeu que algumas coisas precisariam ser reaprendidas. John o olhou rapidamente e estranhou, mas algo em seu semblante demonstrava que ele sabia que estavam um de frente ao outro. Therry aproximou-se devagar, como nunca havia feito antes, encostando a cabeça em suas pernas sem força, sem peso, apenas presença. O cheiro era o mesmo. O amor também.

— John… sou eu, Therry.

— O quê? Como assim? Therry é meu cachorro, que infelizmente sofreu um acidente comigo… Como você conseguiu entrar aqui? Eu vou chamar a polícia!

— NÃO, JOHN! Sou eu! Eu não sei o que houve, mas sou o Therry. Eu acordei no hospital e tudo estava tão diferente… meu focinho agora é um nariz, eu não tenho rabo… au!

— Mas como… isso é uma brincadeira?

— John, acredita em mim! Sou eu, Therry. Eu vou te provar. Eu sei que você sempre acorda de mau humor, que odeia trabalhar e escrever pela manhã. Sei que você adora comer mamão e divide comigo todo domingo depois de ir à feira. Sei que essa é a nossa casa e que você briga comigo se eu fizer xixi fora do tapete…

— Isso não pode ser possível…

— Sei que estávamos juntos indo visitar sua família. Sei que você assobia quando quer que eu corra atrás de você…

— Therry… como isso é possível? O que houve? Eu estou sonhando?

— Não, John. Eu estou aqui. E vou estar sempre aqui. Parece que alguém sabia que você precisaria de mim…

Naquele dia, Therry compreendeu que não havia virado humano por acaso. Não era para falar, nem para andar em duas pernas, nem para entender o mundo dos homens. Era para ficar. Para aprender a esperar, a acompanhar, a ser constância quando tudo ao redor precisava ser ressignificado. Viver a vida humana honrando o instinto de cão: estar ali, todos os dias, como o melhor amigo do homem.

 

2025

 

Eu nem sei direito como falar sobre 2025, mas não posso deixar de refletir, acho que a vida precisa sim ser mais leve, acho que as metas precisam ser reais, acho que o está na hora de parar de usar o termo “processo” e aceitar que é essa é minha vida, e os lugares e conquistas não me moldaram mais serão fases que eu pretendo viver da melhor maneira possível, mas ainda sim preciso ser intencional, prestar atenção em mim e no que está a minha volta, encontrar o equilíbrio entre a intencionalidade e a leveza de viver.

Esse ano passei por dias bons e alguns ruins, tive momentos em que desanimei muito e me cobrei por estar com 32 anos e não ter conquistado nada do que tinha almejado para essa idade, mas também olhei a minha volta e vi tantas coisas que conquistei.

Esse ano recebi uma dose de coragem, tive medo em vários momentos mas não parei, entendi que Deus tem a soberania de abrir e fechar e isso não depende da minha obediência completa ou da minha fidelidade apenas, porque no final não é sobre mim, mas sim sobre ele.

Esse ano eu não senti em nenhum momento vontade de desviver, me senti exausta emocionalmente várias vezes, me senti sobrecarregada de pensamentos e sentimentos, mas consegui de certa forma lidar com eles, sem a sensação de eu não suporto estar aqui. Esse ano eu me aproveitei muito, talvez eu tenha ido menos a parques, e tenha lido menos, mas fiz tudo com vontade, o que li, o fiz com o coração, o que assisti foi com vontade, o que ouvi foi cantando bem alto e com toda a minha alma, esse ano entendi que as vezes preciso ficar só, em silêncio ter os meus momentos e amar isso.

Esse ano, realmente tirei do papel a pessoa que quero ser, esse ano estudei mais, fiz dieta, treinei e não abandonei o cárdio, por mais que tenha ficado triste várias por não poder correr. Esse ano emagreci!!! Cheguei na minha meta de peso.

Mas também esse ano, não fui responsável com o meu dinheiro, não fiz os estudos bíblicos e não fui tão firme na igreja quanto gostaria, não tirei a carta, não limpei meu nome, e vivi poucos encontros especiais, não fiz a escrita terapêutica e não fui cumprindo os check list.

Esse ano fui vida. Não vivi, fui vida. Fui choro e alegria, fui presa e preguiça, fui fome e saciedade. Fui desejo e apátia, fui firme e fui inconsistente, Esse ano não vivi, fui vida. O tempo não passou, eu passei por ele, porque viver é estar com vida, e quantos de nós, não estão mortos em vida? Esse ano fui protagonista do viver, esse ano, fui vida.

 Já faz um tempinho que eu to com vontade de escrever pra você.

Mas escrever é uma das coisas que acabaram se perdendo de mim sabe? Eu escrevo desde que me entendendo por gente, e depois de tanta vida vivida eu parei... E falando sobre parar, acho que é exatamente isso que eu quero te escrever hoje. 

No dia 24/03 eu estava na sua casa quando algo aconteceu, e eu escrevi: 

As pessoas falam tanto sobre traumas e mesmo depois de ter passado por tudo, eu não me sentia traumatizada, e acho que não usaria esse termo hoje, mas uma coisa é certa me roubaram a capacidade do amor. Não de amar, por que eu amo, sozinha, de novo… Mas de confiar, de acreditar de permanecer. 

Eu simplesmente não consigo fazer isso, não consigo me deixar quebrar novamente, acho que entre o amor e o viver eu fico com a segunda opção. 

E eu estava muito certa que em algum momento eu teria que ter coragem suficiente pra me afastar de você, eu estava muito certa que o final seria o mesmo, e agora estamos aqui, e eu poderia dizer que EU estou aqui, completamente apaixonada, mas acho que posso dizer que estamos? Não quero falar por você, tanto que durante o todo o tempo em que estamos juntos eu respeitei o seu tabu com o "eu te amo" mais sinceramente eu não posso negar que dia a após dia você me faz me sentir muito amada! E sim mesmo muito amada eu ainda tenho medo, acho que existem receios que talvez eu nunca perca, mas *eu preciso* te dizer que mais lindo do que simplesmente amar (sendo eu a pessoa mais intensa e apaixonada por tudo no mundo) é escolher e se permitir ser amada, é escolher ficar e dividir a vida com você. 

Eu te amo, muito, e se tiver que escolher você vai ser minha primeira, segunda, terceira e única opção de amor! 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

PI PI PI PI DO NADA

 O tempo é com certeza o maior mistério do nosso mundo, ao mesmo tempo que ele pode passar devagar e arrastado ele pode mudar duas vidas em questão de segundos. 

Foram necessários segundos para o carro dar duas voltas no ar e então tudo se apagou.


Therry


Pi pi pi pi pi pi…


Mas que barulho chato! Ei tem um cachorro descansado aqui pessoal! 


domingo, 24 de março de 2024

Me roubaram a capacidade de amar.

Eu não sei mais, desaprendi amar, confiar e permanecer.

Tenho medo e muitas desculpas para simplesmente escapar.

Ter um coração é tão precioso e só quem já teve o seu dilacerado em pedacinhos sabe o quão difícil pode ser se deixar ser vulnerável novamente. 

Eu não esperava estar tão triste agora, não aqui, não hoje. Por mais que existam tantos motivos pra sorrir, acreditar e tentar de novo nenhum motivo parece me convencer de que dá pra ser feliz de verdade. 

As pessoas falam tanto sobre traumas e mesmo depois de ter passado por tudo eu não me sentia traumatizada, e acho que não usaria esse termo hoje, mas uma coisa é certa me roubaram a capacidade do amor. Não de amar, por que eu amo, sozinha, de novo… Mas de confiar, de acreditar de permanecer. 

Eu simplesmente não consigo fazer isso, não consigo me deixar quebrar novamente, acho que entre o amor e o viver eu fico com a segunda opção. 

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Dói mas vai passar…

 Machuca até curar. 

Se por algum momento eu trouxe uma falsa imagem de alegria, peço perdão, mesmo que seja a ninguém.

Hoje aconteceu algo, milhões de algos e você nunca vai saber.


domingo, 30 de abril de 2023

No meu lugar

 De volta ao meu lugar confortável, onde nada e ninguém pode me alcançar, de volta a tranquilidade da solicitude, sem ter que mostrar nada pra ninguém.

Menos conexões e mais ações na vida das pessoas que escolhem caminhar comigo. 

O Melhor Amigo do Homem

  PI PI PI PI DO NADA O tempo é, com certeza, o maior mistério do nosso mundo. Ao mesmo tempo em que ele pode passar devagar e arrastado, ...